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O Palácio d’Ouro e a Sedição de Vila Rica: História, Poder e Fogo no Morro do Paschoal (1720)

Atualizado: 17 de fev.

No Morro da Queimada, em Ouro Preto, repousa o Palácio d’Ouro, um dos mais importantes testemunhos materiais da história mineira. Suas paredes, caminhos e estruturas antigas não apenas sobrevivem ao tempo — sobrevivem, sobretudo, ao fogo e à repressão que marcaram um dos episódios mais intensos do período colonial brasileiro: a Sedição de Vila Rica, em 1720.

Este texto é um convite para revisitar esse momento decisivo da história, compreender seus personagens e reconhecer como o Palácio d’Ouro se insere diretamente nesse cenário de tensão, riqueza e destruição.


O Ouro que Sustentava a Colônia e a Tensão que Crescia

No início do século XVIII, Vila Rica era o coração econômico da América portuguesa. O ouro encontrado na região sustentava não apenas a cidade, mas também o Império Ultramarino. O ouro em pó circulava como moeda, movendo a vida de:

  • artesãos,

  • comerciantes,

  • tropeiros,

  • mineradores,

  • e grandes proprietários de lavras.

Mas esse sistema de circulação livre desagradava a Coroa portuguesa, que via escapar, diariamente, quantidades consideráveis de ouro sem tributação.

Em 1720, em uma tentativa de controlar a arrecadação e limitar o contrabando, Lisboa impõe a criação das Casas de Fundição — locais onde o ouro deveria obrigatoriamente ser fundido e taxado.A medida era rígida, impopular e economicamente disruptiva. E Vila Rica respondeu.


A Eclosão da Sedição

Em junho de 1720, uma onda de protestos tomou as ruas da cidade. Grupos urbanos, trabalhadores, comerciantes e mineradores se organizaram contra as novas regras, exigindo:

  • o fim das Casas de Fundição,

  • o retorno do uso do ouro em pó,

  • o fim dos monopólios abusivos sobre produtos essenciais.

O movimento cresce, ganha força e, rapidamente, torna-se um dos primeiros levantes urbanos da história colonial brasileira.


Felipe dos Santos e Paschoal da Silva Guimarães: Vozes da Revolta

Dois nomes se destacam nesse cenário:

Felipe dos Santos

Tropeiro e comerciante, tornou-se a voz do povo. Seus discursos inflamavam a cidade e denunciavam abertamente as injustiças fiscais. Não por acaso, foi transformado em símbolo e mártir da Sedição.

Paschoal da Silva Guimarães

Grande minerador e um dos homens mais ricos da Vila Rica do início do século XVIII, era proprietário das lavras e estruturas minerárias do Morro do Paschoal, onde hoje se encontra o Palácio d’Ouro. Embora não liderasse o protesto nas ruas, Paschoal representava o descontentamento da elite mineradora com o controle rígido da Coroa — e por isso se tornou alvo central da repressão.


O Conde de Assumar e a Traição que Marcou Minas

À frente da capitania estava o Conde de Assumar, o governador responsável por conter a revolta. Ele adota uma estratégia dupla:

  1. Primeiro, finge negociar. Recebe os revoltosos, promete mudanças e acalma a cidade.

  2. Em seguida, com o movimento disperso, inicia uma repressão brutal.

Felipe dos Santos é preso e executado.E, como golpe simbólico contra a elite, Assumar ordena a destruição das propriedades de Paschoal da Silva Guimarães.

A brutalidade dessa ação marcou profundamente a memória mineira — tanto que, dois séculos depois, Cecilia Meireles lembraria o episódio no Romanceiro da Inconfidência:

“Já nos velhos tempos de Assumar, 

palavras doces precediam o castigo.”

Um verso que ecoa, com precisão poética, a confiança quebrada e a violência que se seguiu.


Nasce o Morro da Queimada

Tropas coloniais subiram o morro, incendiaram casas, engenhos, depósitos, ferramentas e estruturas inteiras ligadas ao complexo minerário de Paschoal. O fogo devastou o território — e é daí que surge o nome Morro da Queimada.

O Palácio d’Ouro, embora profundamente afetado, sobreviveu ao episódio. Hoje ele é um dos poucos remanescentes desse período e um dos espaços mais importantes para compreender a Sedição.


O Que Fica Depois do Fogo

Após a repressão:

  • Paschoal perdeu poder, bens e prestígio, e desapareceu da vida política.

  • Felipe dos Santos tornou-se símbolo da resistência popular.Vila Rica entrou em um período de controle rígido e vigilância constante.

  • A Sedição tornou-se marco inaugural da tradição mineira de contestação, que culminaria, décadas depois, na Inconfidência Mineira.

O Morro da Queimada e o Palácio d’Ouro permanecem como testemunhas vivas desse passado — memórias de ouro, fogo e resistência que ajudam a compreender a construção histórica de Minas Gerais.


Palácio d’Ouro: Memória Viva de 1720

O Palácio não é apenas uma construção colonial:é um território onde a história aconteceu.Onde decisões foram tomadas, onde conflitos se acirraram e onde a repressão deixou marcas profundas.

Ao visitar o Palácio d’Ouro, você está caminhando pelo mesmo chão em que se desenrolaram os acontecimentos da Sedição. Está entrando no espaço que abriu, à força, um dos capítulos mais importantes da história mineira e brasileira.


Referências

Livros e Pesquisadores

  • João Pinto Furtado — A Sedição de Vila Rica: poder local e conflito na América portuguesa (Companhia das Letras).

  • Kenneth Maxwell — A Devassa da Devassa: Inconfidência Mineira – Brasil e Portugal, 1750–1808.

  • Sérgio Buarque de Holanda — História Geral da Civilização Brasileira – O Brasil Monárquico: As Minas.

  • Lúcia Bastos Pereira das Neves — estudos sobre Felipe dos Santos e cultura política nas Minas.

Documentos Históricos

  • Arquivo Público Mineiro — Livros da Câmara de Vila Rica (1711–1730).

  • Devassa da Sedição de Vila Rica (1720) — documentos preservados no Arquivo Público Mineiro e no Museu da Inconfidência.

  • Correspondência do Conde de Assumar à Coroa Portuguesa.

Obras Literárias

  • Cecília Meireles — Romanceiro da Inconfidência (referência poética à memória da traição de Assumar).

Museus e Instituições

  • Museu da Inconfidência — acervo sobre a administração colonial e sobre a Sedição.

  • Arquivo Público Mineiro — repositório de documentos oficiais da época.

Pesquisa Local e Territorial

  • Estudos sobre o Morro da Queimada e sua arqueologia histórica.

  • Registros do IPHAN sobre patrimônios relacionados à mineração colonial em Ouro Preto.


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