O Palácio d’Ouro e a Sedição de Vila Rica: História, Poder e Fogo no Morro do Paschoal (1720)
- Anna Maria Toledo

- 11 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de fev.
No Morro da Queimada, em Ouro Preto, repousa o Palácio d’Ouro, um dos mais importantes testemunhos materiais da história mineira. Suas paredes, caminhos e estruturas antigas não apenas sobrevivem ao tempo — sobrevivem, sobretudo, ao fogo e à repressão que marcaram um dos episódios mais intensos do período colonial brasileiro: a Sedição de Vila Rica, em 1720.
Este texto é um convite para revisitar esse momento decisivo da história, compreender seus personagens e reconhecer como o Palácio d’Ouro se insere diretamente nesse cenário de tensão, riqueza e destruição.
O Ouro que Sustentava a Colônia e a Tensão que Crescia
No início do século XVIII, Vila Rica era o coração econômico da América portuguesa. O ouro encontrado na região sustentava não apenas a cidade, mas também o Império Ultramarino. O ouro em pó circulava como moeda, movendo a vida de:
artesãos,
comerciantes,
tropeiros,
mineradores,
e grandes proprietários de lavras.
Mas esse sistema de circulação livre desagradava a Coroa portuguesa, que via escapar, diariamente, quantidades consideráveis de ouro sem tributação.
Em 1720, em uma tentativa de controlar a arrecadação e limitar o contrabando, Lisboa impõe a criação das Casas de Fundição — locais onde o ouro deveria obrigatoriamente ser fundido e taxado.A medida era rígida, impopular e economicamente disruptiva. E Vila Rica respondeu.
A Eclosão da Sedição
Em junho de 1720, uma onda de protestos tomou as ruas da cidade. Grupos urbanos, trabalhadores, comerciantes e mineradores se organizaram contra as novas regras, exigindo:
o fim das Casas de Fundição,
o retorno do uso do ouro em pó,
o fim dos monopólios abusivos sobre produtos essenciais.
O movimento cresce, ganha força e, rapidamente, torna-se um dos primeiros levantes urbanos da história colonial brasileira.
Felipe dos Santos e Paschoal da Silva Guimarães: Vozes da Revolta
Dois nomes se destacam nesse cenário:
Felipe dos Santos
Tropeiro e comerciante, tornou-se a voz do povo. Seus discursos inflamavam a cidade e denunciavam abertamente as injustiças fiscais. Não por acaso, foi transformado em símbolo e mártir da Sedição.
Paschoal da Silva Guimarães
Grande minerador e um dos homens mais ricos da Vila Rica do início do século XVIII, era proprietário das lavras e estruturas minerárias do Morro do Paschoal, onde hoje se encontra o Palácio d’Ouro. Embora não liderasse o protesto nas ruas, Paschoal representava o descontentamento da elite mineradora com o controle rígido da Coroa — e por isso se tornou alvo central da repressão.
O Conde de Assumar e a Traição que Marcou Minas
À frente da capitania estava o Conde de Assumar, o governador responsável por conter a revolta. Ele adota uma estratégia dupla:
Primeiro, finge negociar. Recebe os revoltosos, promete mudanças e acalma a cidade.
Em seguida, com o movimento disperso, inicia uma repressão brutal.
Felipe dos Santos é preso e executado.E, como golpe simbólico contra a elite, Assumar ordena a destruição das propriedades de Paschoal da Silva Guimarães.
A brutalidade dessa ação marcou profundamente a memória mineira — tanto que, dois séculos depois, Cecilia Meireles lembraria o episódio no Romanceiro da Inconfidência:
“Já nos velhos tempos de Assumar,
palavras doces precediam o castigo.”
Um verso que ecoa, com precisão poética, a confiança quebrada e a violência que se seguiu.
Nasce o Morro da Queimada
Tropas coloniais subiram o morro, incendiaram casas, engenhos, depósitos, ferramentas e estruturas inteiras ligadas ao complexo minerário de Paschoal. O fogo devastou o território — e é daí que surge o nome Morro da Queimada.
O Palácio d’Ouro, embora profundamente afetado, sobreviveu ao episódio. Hoje ele é um dos poucos remanescentes desse período e um dos espaços mais importantes para compreender a Sedição.
O Que Fica Depois do Fogo
Após a repressão:
Paschoal perdeu poder, bens e prestígio, e desapareceu da vida política.
Felipe dos Santos tornou-se símbolo da resistência popular.Vila Rica entrou em um período de controle rígido e vigilância constante.
A Sedição tornou-se marco inaugural da tradição mineira de contestação, que culminaria, décadas depois, na Inconfidência Mineira.
O Morro da Queimada e o Palácio d’Ouro permanecem como testemunhas vivas desse passado — memórias de ouro, fogo e resistência que ajudam a compreender a construção histórica de Minas Gerais.
Palácio d’Ouro: Memória Viva de 1720
O Palácio não é apenas uma construção colonial:é um território onde a história aconteceu.Onde decisões foram tomadas, onde conflitos se acirraram e onde a repressão deixou marcas profundas.
Ao visitar o Palácio d’Ouro, você está caminhando pelo mesmo chão em que se desenrolaram os acontecimentos da Sedição. Está entrando no espaço que abriu, à força, um dos capítulos mais importantes da história mineira e brasileira.
Referências
Livros e Pesquisadores
João Pinto Furtado — A Sedição de Vila Rica: poder local e conflito na América portuguesa (Companhia das Letras).
Kenneth Maxwell — A Devassa da Devassa: Inconfidência Mineira – Brasil e Portugal, 1750–1808.
Sérgio Buarque de Holanda — História Geral da Civilização Brasileira – O Brasil Monárquico: As Minas.
Lúcia Bastos Pereira das Neves — estudos sobre Felipe dos Santos e cultura política nas Minas.
Documentos Históricos
Arquivo Público Mineiro — Livros da Câmara de Vila Rica (1711–1730).
Devassa da Sedição de Vila Rica (1720) — documentos preservados no Arquivo Público Mineiro e no Museu da Inconfidência.
Correspondência do Conde de Assumar à Coroa Portuguesa.
Obras Literárias
Cecília Meireles — Romanceiro da Inconfidência (referência poética à memória da traição de Assumar).
Museus e Instituições
Museu da Inconfidência — acervo sobre a administração colonial e sobre a Sedição.
Arquivo Público Mineiro — repositório de documentos oficiais da época.
Pesquisa Local e Territorial
Estudos sobre o Morro da Queimada e sua arqueologia histórica.
Registros do IPHAN sobre patrimônios relacionados à mineração colonial em Ouro Preto.

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